Um mundo Imenso

Uma mostra vai ganhando forma à medida em que estabelece relações com seu público. O Cinelapinhô, em suas primeiras edições, vem se conectando à comunidade da Lapinha da Serra, em grande medida a partir das concepções curatoriais.

Mas não apenas. Tudo que se refere à Mostra cria comunidade, se constituindo através do diálogo. A produção, as demandas por hospedagem e alimentação, as necessidades técnicas, as peças de divulgação espalhadas pela cidade, os visitantes que vão à cidade para a mostra.

Uma Mostra é um caleidoscópio de encontros, e buscamos, como equipe, mantermo-nos sensíveis a tudo o que se passa na relação com a cidade.

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A Primeira mostra, que aconteceu na lua nova, num contexto pós-pandemia, trouxe a ideia de que Da Escuridão Nascem os Sonhos, procurando desvincular a escuridão de seus sentidos estritamente negativos, e propondo a conexão com o simbolismo da lua nova como gérmen do que vem.

Saíamos todos do contexto traumático da pandemia/quarentena, e sentíamos que precisávamos, todos, de um espaço de acolhimento para o que começava, timidamente, a se apresentar como desejo e possíveis para a vida pós-trauma.

Tal como o cinema e os sonhos, que também nascem do escuro e fecundam nossa vigília de possíveis. Portanto, buscamos direcionar a linha curatorial para essa fecundação, através de filmes que dialogasse com a noite, a imaginação, os sonhos.

Seguimos firmes em nossa concepção de que a imaginação semeia o real, reafirmando nosso compromisso com a comunidade da Lapinha da Serra em trazer e construirmos, juntos, um repertório ampliado de possíveis e cultivar espaços para o sonho, a imaginação, a cura e a criação.

Na segunda edição da Mostra, já contando com a aceitação da comunidade e as respostas positivas à Primeira mostra, além de uma percepção mais ampliada das especifidades do contexto, propusemos como linha curatorial, Quando Mundos se Encontram.

Apostando no poder dos encontros para a construção de novos mundos possíveis, e, principalmente, na força do cinema em conectar, dialogar, fazer sonhar e agir, essa segunda mostra foi, também, um momento de nos percebermos, enquanto equipe realizadora, como mundo em relação com o mundo da Lapinha da Serra. Buscamos, então, selecionar filmes que apresentassem possibilidades de conexões entre culturas, tempos, realidades, ideias e experiências. Apostando que encontros criam mundos, e o encontro da comunidade da Lapinha da Serra com esses filmes também seria um momento de criação e germinação de possíveis.

Uma mostra não é apenas formação de público, o que, em si, já é muita coisa.
Acreditamos que podemos, também, colaborar na construção de relações mais empáticas, plurais e respeitosas à diversidade. Por meio de narrativas que cruzam culturas, tempos, realidades e ideias, o cinema pode nos levar a refletir sobre a nossa própria visão de mundo e a nossa responsabilidade como agentes da transformação.

Mantivemos a proposta de selecionar filmes que traziam o universo da fantasia e da imaginação, privilegiando os que dialogassem com as tradições locais da Lapinha da Serra. Consideramos que o momento político pelo qual passávamos nos convocava a posicionamentos que ultrapassassem a polarização política, buscando, através da cultura, possibilitar a construção de laços entre universos, grupos, realidades. Entre mundos.

3º Cine lapinhô

Para esta terceira edição, a Mostra Cinelapinhô propõe como linha curatorial, “Um Mundo Imenso”, um convite a afinar os sentidos para os reinos que coabitam conosco o planeta, para além do humano.

Inspiradas pelo livro homônimo, que desvenda como animais percebem dimensões invisíveis para nós, propomos uma curadoria que amplie nossas artes de notar: filmes que nos ensinem a escutar a montanha, a traduzir os gestos das folhas, a decifrar a linguagem das nuvens sobre a Serra.

Calar o humano para que essas outras vozes semeiem nossa imaginação.

Afirmamos a imaginação como semeadora de mundos, desde a primeira edição, e nessa, buscamos o que se imagina com parceiros não apenas humanos. O cinema, tão marcado por uma história colonial de homogenização, pode ser também ferramenta de descolonização do imaginário. Se ele já impôs narrativas únicas, agora ele busca criar pontes: entre humanos e não-humanos, entre a pedra e o sonho, entre o que vemos e o que precisamos nos trabalhar imaginativamente para conseguir perceber.

Como a Lua Nova que germinou nossa primeira edição, ou os encontros de mundos que teceram a segunda, esta mostra quer ser um exercício de humildade perceptiva.

Ampliar nossos mundos na relação com animais, vegetais e minerais, constituindo-nos em assembléias interespecíficas em relação com as imagens. Selecionaremos filmes que perturbem o excepcionalismo humano e que nos convidem a aprender com os líquens a crescer em colaboração; compreender com os morcegos que a escuridão também é morada; dançar com os rios a geografia do encontro.

E assim, seguiremos fazendo da mostra um organismo vivo, que respira com a comunidade. Porque a Lapinha vem nos ensinando, a nós, equipe da mostra, que a cultura emerge no diálogo entre o cinema projetado e o cachorro que atravessa a tela e late durante a projeção, entre o debate pós-filme e o vento que perturba o telão da praça. Seguiremos cultivando esse chão, onde a curadoria é feita com o corpo inteiro, atento aos sussurros e brilhos da Serra, às urgências do vento, aos públicos que ainda não chegaram e aos que compartilham conosco seu tempo, sua escuta e suas experiências a cada sessão. Para lembrar que o mundo é imenso..*

Equipe
Cine Lapinhô

Tamira Abreu

Realizadora

Bárbara Burgarelli

Produção / MKT

Cris Ventura

Curadoria